quarta-feira, 22 de abril de 2015

Uma cena na biblioteca

- Não entendo como tem gente que acompanha diversas séries de uma vez só, nossa! Não tenho paciência para assistir um filminho de uma hora! - Explicou colocando o livro de poemas do Vinicius de Moraes na estante cambaleante da biblioteca. 
- Mas de ler um livro de mais de 500 páginas, sim? - Perguntou sorrindo ironicamente. - Ele não deveria provocar aquele reboliço todo em seu coração, pensava consigo mesma.
- Bem... sou estranha, sabe?
- Sei. Estranhamente inteligente. 
- Ué, você também gosta de ler, não? - Replicou virando-se finalmente para ele, e torcendo para que seu rosto não aparentasse sua timidez exacerbada. 
- Sim, mas não como você. E sinceramente, os títulos que você se dispõe a ler não me interessam em nada.
- Ah, as pessoas acostumaram-se a ler as fantasias de hoje em dia - que para mim não acrescentam em muita coisa.
- E a literatura de meados século XX, sim?
- Com certeza.
- Não há diferença entre as histórias, moça.
- Você não sabe o que diz. - Replicou sorrindo francamente.
- Começamos pelo melhor escritor da literatura brasileira, Machados de Assis com sua melhor obra - Dom Casmurro, certo? Para mim não passa de uma historinha "da desconfiança" ou seria certeza?, de uma traição, narrada por um personagem meio lunático, que no final da vida optou por prezar a amargura, tudo isso em uma linguagem rebuscada! Agora vamos para José de Alencar, bem, Iracema! A virgem dos lábios de mel! Uma índia totalmente idealizada que tem um caso de amor com um estrageirinho, que logo a abandona, e só volta quando a mesma personagem está morta! Claro, tudo isso é uma linguagem de "tirar o fôlego e exorcizar o cérebro". Agora me diga o que há de tão surreal nisso?
- O rapaz estava tão próximo que ela se perguntava como teria permitido que isso acontecesse sem que percebesse. O rosto dele estava a centímetros de distância do seu. Seu rosto que antes aparentava uma indignação irônica, no momento a estudava. Ela sentiu sua vermelhidão própria pairar em suas bochechas, enquanto maquinava rapidamente o que fazer para se afastar dele (todavia isso era o que menos queria). Porém antes que ela chegasse a uma conclusão, o rapaz se afasta repentinamente e em passos rápidos saí batendo a pobre-velha-porta da biblioteca...

Deixando a garota sem fôlego. 
ALVES, Ellen.